quarta-feira, 29 de junho de 2016

Mini-biografia

Quando eu era pequeno, fazia uns cachorros e umas casinhas com a caneta e dizia para mim mesmo: "Os desenhos são meus melhores amigos".  Eu gostava muito de desenhar. Tinha uma dificuldade imensa de fazer o Cebolinha, mas o Pateta e o Donald, mais complexos, saiam com uma facilidade tremenda. Quem sabe se eu trabalhasse na Disney eu fosse quem eu teria que ser.

Mais tarde, lá pela adolescência, descobri que o Brasil era o único país que importava - e que me importa até hoje. Rasguei o livro de inglês na frente da professora. "Não quero falar a língua do imperialista". Por sorte (por azar, na verdade, por ter um inglês ruim até hoje), eu estudava numa escola islâmica (só por ser perto de casa) e o diretor, Khaled, de vasto bigode muçulmano, achou por bem reunir a minha mãe e a professora para sacramentar: "Se o menino não quer estudar inglês, que não estude". Ah, se eu tivesse destroçado o livro de matemática...

Só uma coisa dos americanos (que mesmo na adolescência numa me atrevi a pronunciar estadunidenses) eu não abria mão: os gibis da Disney. Donald e Peninha me fizeram ser jornalista. Quem não quer, afinal, descer de helicóptero numa ilha deserta para dar uma notícia primeiro que A Patranha?

Ela também me fez ser jornalista. Depois, ela outra, e ela outra ainda; a próxima, ficava fascinada com minhas reportagens numa revista chata de saúde hospitalar. "Como você escreve bem", dizia, eu agradecia, a gente se beijava, e depois vieram outra, mais outra e outra mais.

Em seguida comecei a escrever sobre cultura brasileira numa outra revista. Na última página havia um espaço para colocar uma charge. Certa vez, não havia charge nenhuma para preencher a lacuna. Eu disse: "Eu sei desenhar!", com a auto-estima de quem tem super-poderes. Fiz uns traçados, apresentei para o editor e o diretor de arte, eles zombaram da minha cara e jogaram kriptonita sobre meu super-poder. Eu voltei para as letrinhas mesmo.

Nesse meio tempo, teve ela, que era só confusão (e muita energia), e ela outra, que me ensinou que Ypê é a música mais bonita de todas. Sofri em certo junho, vibrei um ano depois, tudo se bagunçou e, por culpa do Khaled (lembra dele?) tive que ir para os Estados Unidos aprender a falar inglês.

Corri dos esquilos, subi e desci ladeiras com uma ruiva de nome complicado, aprendi que os árabes são pessoas de sentimentos extremos, fiz as pazes com os americanos, confirmei que ser brasileiro é muita vantagem, tive medo de nunca mais pisar nesta terra e senti frio, muito frio. Também fui me alternando entre ser totalmente loser e absolutamente winner.

Voltei para o Brasil, beijei o chão e cresceram uns fios brancos na barba. Quiseram derrubar a presidenta que eu gosto e usei todas as letrinhas que conheço para evitar. Nada feito, mas fiquei perto do maior presidente da história deste país e só fiz chorar.

Depois de tanto tempo, a minha vida mudou pouco, no fim das contas. Eu tenho uma inveja e um desprezo danados por essa gente que se reinventa. Eu tenho linha editorial, para o bem e para o mal. Eu só preciso dela, de um lugar que me dê dinheiro e orgulho para escrever umas palavras, um cachorro, umas pessoas para falar mal e alguém que eu possa ensinar a fazer uns desenhos. Quem sabe ele não cumpra o meu fado deixado de lado - ser desenhista da Disney.

domingo, 4 de janeiro de 2015

I apologize

Eu preciso pedir desculpas. Eu errei, eu errei feio. Vamos direto aos fatos: o frio não é melhor que o calor. Eu passei a vida reclamando da temperatura alta de São Paulo no verão. Agora, que moro a milhas de onde praguejei um bocado contra os 30 e poucos graus estampados nos relógios da cidade, sei que a alegria é oposta. Não há preço poder suar pelas ruas paulistanas e tentar convencer o chefe a trabalhar de bermuda. O calor é insuperável. Por favor, me desculpem, mesmo.

Estou em San Francisco/Berkeley há um mês e pouco. Eu gosto. Eu moraria aqui para sempre se estivesse no Brasil e não fizesse frio. A temperatura estar baixa não é o maior problema - o mau é isso ser todo dia. É um acordar e dormir sabendo que as coisas não vão mudar. O frio diário só não é pior que ouvir de brasileiros como por estas terras tudo funciona - do tamanho da moeda de 10 centavos ao preço do Iphone. Os americanos são muito melhores. Só esqueceram de combinar com a natureza.

A Bay Area sequer é um dos lugares mais gelados dos Estados Unidos, nem neve há. Talvez porque os latinos esquentaram a região. Há torcedores de futebol americano a sério, gente fazendo rap no metrô, hipster não muito insuportáveis criando suas coisas em espaços pequenos, apresentações de músicas boas e cerveja forte. Entre barracas de cachorros-quentes e bares só com cadeiras no balcão, muita coisa acontece. Andar sem parar pelas ruas da cidade é uma coisa boa a se fazer - quanto mais se anda menos se perde, um mistério difícil de explicar.

Num certo dia subi-e-desci as ladeiras de San Francisco com uma menina ruiva de voz bonita e nome complicado com paciência para entender a minha pronúncia sofrível. Ela me levou a um mirante escondido e pouco visitado da cidade, vimos na tevê o maior clássico da região de futebol americano (a partir de então sou Raiders desde criancinha) e expliquei a ela sobre o Corinthians, o Fagner e os Racionais. Ela gostou, mas precisou ir. Só o frio insiste em ficar.

Já aprendi uma par de palavras e expressões novas neste um mês e pouquinho: each, pick up, pound, pilsner beer, turn right, hangover, microwave, I used to, might, I had been (sim, vim com inglês bem básico). Quase que consigo entender a maioria das palavras dos programas de televisão - mesmo que eu ainda não saiba o significado. Bato papos simples e faço mímicas complexas com os companheiros de escola. Pedir cerveja, comida e informações de ônibus já está moleza. Consigo também explicar como o beisebol talvez seja o esporte mais idiota do planeta. Por sorte, todos com os quais falei de fato preferiam o futebol americano ou o basquete, dois esportes com E maiúsculo. Mas beisebol, meus amigos, é pior que ser escalador de montanhas, como diria um grande jornalista de décadas passadas.

É um prazer aprender cada palavra nova - é para isso que aqui estou. Mas nada tão confort place quanto o meu idioma. A língua portuguesa é a minha pátria. A minha pátria é também o meu sol. Guardem um pouco dele para mim que já já eu volto.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sem salvar



De repente, perto dos 40 anos, Ferdinando descobriu que não sabia mais escrever. Logo ele que passou a vida toda recebendo elogios dos professores por suas redações na escola e na faculdade, que bolou as frases mais espertas para a publicidade e ainda se meteu a conquistar meninas com poemas ritmados, alguns até em soneto. Agora, senta-se à frente do computador e as palavras não vêm. É como se a cabeça e a alma estivessem vazias. Tornou-se um robô ou um personagem mal-acabado de si mesmo.

Um dia, meio para tentar um tudo ou nada, teimou que ia voltar a escrever em alto nível. A ideia era fazer um romance – todo mundo respeita quem escreve um romance, pensou. Abriu o Word e começou a botar as primeiras palavras. Mas não tinha repertório nem para chegar ao fim do primeiro parágrafo, quanto mais um livro de 200 páginas. Decidiu, então, dar uma volta pela rua, para ver se a sua cabeça voltava a ser fresca.

Pensou na própria vida até então. Há uns anos, era um ser cheio de entusiasmo por qualquer tipo de assunto. Daqueles que adoravam versar em mesa de bar como Luiz Gonzaga era maior que os Beatles – e a sério, dando detalhes sobre a vida e a obra do compositor pernambucano, mesmo que boa parte das pessoas já tivesse saído de fininho da mesa. Ou que olhava para uma mulher de cabelos castanhos encaracolados e sentia de pronto que ela poderia ser a mãe dos seus filhos. Ultimamente, não tem paciência para ouvir sequer os primeiros acordes da sanfona de Gonzagão e sabe que mulher é só problema, sempre foi. Ao menos com amor.

Ferdinando lembrou como passou anos debochando da vida, das pessoas. E como o deboche se tornou um vício. E, como todo vício, o começo é prazeroso. No início os amigos se divertem com suas observações ferinas em relação a tipos sociais e comportamentos. Mas o sucesso sobe à cabeça. Quando se vê, não tem mais sensibilidade para diferir as pessoas. Todas estão em caixas. As caixas sociais até fazem sentido. Com o tempo, porém, quem sai perdendo é o encaixotador.

Sente saudade quando suas qualidades eram exaltadas com uma facilidade incrível. Com 15 anos, por exemplo, o fato de conhecer de cor todas as músicas do Chico Buarque e Beto Guedes era motivo de elogios rasgados dos mais velhos. “Nossa, esse menino é inteligentíssimo”. Hoje, não faz diferença alguma. Os seus conhecimentos são inúteis. É como se todos que não conheciam as músicas de Beto Guedes tivessem o passado na corrida para serem pessoas melhores – até por não serem tão exaltados na infância. Já ele ficou parado no tempo, envaidecido com os elogios que recebeu na adolescência.

A conclusão da caminhada é que ele tinha virado uma toupeira e não sabia mais como sair da armadilha que criou para si. Não adianta tentar escrever enquanto não aceitar melhorar de verdade, não apenas para impressionar as pessoas. Um dia ele foi bom, mas passou. Hoje, sabe que é um Garrincha da escrita. Mas na fase do Corinthians. E fechou o Word. Sem salvar.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Última saída

O jogo estava perto do encerramento no Pacaembu. Mais uma partida normal, mais uma vitória sobre o Flamengo, se a peleja válida pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro não representasse a despedida oficial dos corinthianos de sua casa por décadas, para, depois, fazerem nova morada no moderno estádio da zona leste.

Ao trilhar do apito do árbitro, a torcida ficou desnorteada. Eu estava ali e vi. Sem nada combinado, sem a intervenção do histérico departamento de marketing do Corinthians, os 39 mil alvinegros presentes ao estádio do povo paulistano não derem um passo sequer em direção à saída. Eram 39 mil saudosistas e desorientados corinthianos.

A maioria ficou estática, admirando o gramado, a curva arquitetônica acima do portão principal, os refletores, qualquer detalhe que passou despercebido e que no dia representava uma dolorida última olhada. Outros andavam de um lado para o outro, como para pisar de forma derradeira no piso frio do cimento do Tobogã.

Não havia cantorias nem provas efusivas de amor. Era a sensação de quem compra uma bela casa nova, após muita labuta, mas se despedaça o coração de largar a saudosa maloca alugada. Foram uns 10 minutos de puro e absoluto silêncio. Interrompido, apenas, por um sujeito mais sentimental ao meu lado, de uns 40 e poucos anos, que chorava de soluçar.

Eu comecei a subir os degraus em direção à saída. Quando entrei na passarela que leva ao portão, ouvi o primeiro cidadão ao meu lado a murmurar: “Timão eô, Timão eô, Timão eooô”. Não que a mesma cena já não tivesse se repetido mil vezes. Mas nunca com tanto respeito e reverência, como se fosse em uma procissão. É isso que aconteceu na saída dos torcedores do Tobogã: a mais sincera procissão em reverência a um dos mais importantes símbolos religiosos de boa parte dos paulistanos.

O “Timão eô” se tornou um exclusivo uníssono. Ninguém ousou gritar sequer um “Vai Corinthians!”. Foi um mantra como deve ser, com respeito e profundidade. O coro acompanhou os pretos e os brancos até o caminho da rua. Dali, cada um seguiu a sua rota. Com a melancolia de saber que nunca mais fariam o caminho inverso. O Pacaembu se tornou apenas uma foto no coração. Mas como dói.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"O povo brasileiro já não se julga um vira-latas"

No fim do ano passado, recebi a missão do Almanaque Brasil de fazer uma “entrevista póstuma” com o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, em homenagem ao centenário de seu nascimento. A proposta era a de ler seus incontáveis escritos e, a partir deles, bolar uma entrevista de perguntas e respostas.
 
Passei dois dias inteiros trancado em uma biblioteca em meio a mais de 10 livros do pernambucano. A missão foi dura. Comprovei, como já suspeitava, que não há uma crônica, uma página, um parágrafo, uma linha de Nelson Rodrigues que não renda uma grande resposta. Talvez seja o homem que menos tenha desperdiçado palavras durante a longa vida de escritor.

Abaixo, o resultado do “bate-papo” com o maior carioca nascido em Pernambuco de todos os tempos. Obrigado, Nelson Rodrigues, por me conceder a melhor entrevista da minha vida.

Você realmente acredita que as pessoas da vida real são tão mórbidas e vis como em suas peças e contos? A ficção, para ser purificadora, tem que ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. E no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a plateia é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros, de insanos, e, em suma, de uma salada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.

Em 1957, você atuou na peça Perdoa-me por Me Traíres, de sua autoria. Não teve medo de passar vergonha por não ser um ator profissional? Absolutamente. E digo mais: só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando. Além do mais, o ator possui uma técnica, uma tarimba, um charme, que o envaidecem. Ao morrer em cena, não conseguem esconder sua satisfação ilimitada de estar morrendo tão bem. Não lhe ocorre que o personagem morreria mal, morreria pessimamente.
A sua peça Vestido de Noiva é considerada o marco inicial do moderno teatro brasileiro. Como vê o teatro nacional desde então? Não sei se notaram, mas o nosso teatro anda inteligentíssimo e de uma inteligência insuportável. Nem sempre foi assim. Por toda a Belle Époque e até 1930, o teatro não pensava. Cada qual fazia as coisas simples e profundas no seu métier. O ator começava e acabava no palco. Cá fora, na vida real, babava fisicamente na gravata. A atriz, idem. E o contrarregra não passava de contrarregra. Por isso mesmo, o teatro chegava mais depressa e com um impacto mais firme e mais puro ao coração do povo. Havia o sucesso, sem o qual, diz Jouvet, não há teatro. Um dia vi uma peça minha em São Paulo. Se o jovem diretor não fosse inteligente, seria fidelíssimo ao texto. E, então, o público veria O Beijo do Asfalto, e veria Nelson Rodrigues. Desgraçadamente, estávamos diante da inteligência. Todos autorizados a improvisar.

Você costuma dizer que a beleza é uma desvantagem para a mulher. Por quê? A beleza feminina é uma terrível enfermidade. De fato, a beleza causa na mulher um desgaste interior, macio, insidioso, fatal. E, no fim, a mulher bonita se volta contra si mesma, com tédio e ira de todos os seus dons plásticos. Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão na alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma. Olhe a Marilyn Monroe. Morreu tão linda e tão só.

Mas a ditadura da beleza está aí, exigindo medidas perfeitas, corpos magros... Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, veja: pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro. É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que conheci são, fatalmente, magros. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor. Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória.

Por que passou a escrever tanto sobre política? Eu sou um ex-covarde. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos. Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Depois de tudo o que passei, meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: “Sou um ex-covarde”. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Vermelho ou de Mao Tsé-Tung, ou de Guevara. Antigamente, o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar um cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os "melhores" pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.

Mas há muita gente boa que defende o marxismo... Quando esteve por aqui, Jean-Paul Sarte deu uma entrevista coletiva. Em um momento, cravou o seu olhar na cara mais próxima e disse: “O marxismo é inultrapassável”. Não houve um murmúrio, um muxoxo, um oh, nada, nada. Está claro que era uma opinião de torcedor do Bonsucesso. Mas o gênio pode ousar opiniões de torcedor do Bonsucesso. De mais a mais, Sartre tinha, ao seu lado, a língua francesa, a prosa francesa. Qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas. E não ocorreu a ninguém que, dali a 15 minutos, o marxismo poderia estar mais ultrapassado que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Dizia o Otto Lara Resende: "O cinema é uma maneira fácil de ser intelectual sem ler e sem pensar". Mas não só o cinema dá uma carteirinha de intelectual profundo. Também o socialismo. Sim, o socialismo é outra maneira facílima de ser intelectual sem ligar duas ideias. Minhas últimas palavras seriam: “Marx é uma besta”.


Ainda perdura o racismo no Brasil? O Brasil gaba-se de sua democracia racial. No entanto, poderíamos indagar uns aos outros: “E os negros? Onde estão os negros?”. É uma pergunta sem resposta. Um visitante ilustre passou um mês no Brasil. E, de repente, vira-se para a grã-fina brasileira que o acompanhava. Perguntou com uma irritação quase imperceptível: “E os negros? Onde estão os negros?”. Só via, e só esbarrava, e só tropeçava em brancos e brancas. Num amargo escândalo, constatava que o Itamaraty é uma paisagem sem negros. Quando foi embora, o rapaz do Itamaraty, que o fora levar, respondeu com a maior polidez e descaro: “Realmente, não temos uma grã-fina preta”. Aqui, ser preto é provar todas as renúncias. Lembro-me de um mulato que, no pileque, ficava repetindo, obtusamente: “Parece que tem um preto aí, o Zé do Patrocínio”.
O brasileiro não gosta do Brasil? Os cretinos fundamentais desprezam o Brasil. As grã-finas da desprezam o Brasil. Uma delas me dizia: o Brasil é um país de quinta ordem. Eu quase lhe disse, mas não disse porque sou tímido: por que a senhora não vai lavar um bom tanque? Eu conheço pessoas tidas como inteligente que desprezam o Brasil. Mas o Brasil vai substituir os Estados Unidos, a Rússia. O Brasil vai dizer a grande palavra nova. O brasileiro é um sujeito formidável. É um sujeito que faz piada, nenhum povo faz piada. Acontece qualquer coisa: uma chanchada, uma catástrofe, o brasileiro inventa uma piada na hora. Olhe todos os homens das outras terras: nenhum consegue ser cafajeste. O brasileiro é cafajeste. Digo cafajeste como um sujeito que planta bananeira até num velório.

Vamos falar de futebol. Qual é a importância do esporte para o povo brasileiro? Diziam que até 1958 no Brasil tinha analfabeto demais. A Copa da Suécia operou um milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização súbita. Graças aos 22 jogadores, que formaram a maior equipe de futebol da Terra de todos os tempos, o Brasil descobriu-se a si mesmo. Os simples, os bobos, os tapados hão de querer sufocar a vitória nos seus limites estritamente esportivos. Ilusão! Os cinco a dois, lá fora, contra tudo e contra todos, são um maravilhoso triunfo vital de todos nós e de cada um de nós. Ninguém tem mais vergonha da sua condição nacional. O povo já não se julga mais um vira-latas. O brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.
Mas, em contraposição ao nosso complexo de vira-latas, não podemos nos tornar uma nação de vaidosos e soberbos? Vou lhe contar uma história: uma senhora brasileira foi recebida pelo papa no Vaticano. Ao se despedir, Sua Santidade pediu, num sussurro: “Reze por mim”. Podia ter essa humildade porque era o papa. Devemos deixar a modéstia, a humildade, para os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, a Itália, o Japão. Nós precisamos de mania de grandeza. A mania de grandeza é o nosso único luxo de subdesenvolvimento.

Entre todos os boleiros, você sempre dedicou especial atenção ao Garrincha. Por quê? Esse rapaz da raiz da serra compensou-nos de todas as nossas humilhações pessoais e coletivas. De 1958 a 1962, o mais indigente dos brasileiros pôde tecer a sua fantasia de onipotência. Na primeira bola que recebia o povo já começava a rir. O povo ria antes da jogada, da graça, da pirueta. Ria adivinhando que Garrincha ia fazer a sua grande área como ópera. Como se sabe só o jogador medíocre faz futebol de primeira. O craque, o virtuoso, o estilista prende a bola. Sim, ele cultiva a bola como uma orquídea de luxo. Todos nós dependemos do raciocínio. Não atravessamos a rua, ou chupamos um Chica-bon, sem todo um lento e intrincado processo mental. Ao passo que Garrincha nunca precisou pensar. Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto. E, por isso mesmo, chega sempre antes,sempre na frente, porque jamais o raciocínio do adversário terá a velocidade genial do seu instinto. 

Qual a sua religião? Eu sou profundamente cristão. Mas eu só entro nas igrejas vazias. Na minha opinião, os crentes e o padre é que estragam a missa. A solidão começou para o verdadeiro católico. Tome nota: ainda seremos o maior povo ex-católico do mundo.

O que acha da morte? Eu tenho uma certeza: a alma é imortal. Tenho o maior desprezo por todos que não acreditam na eternidade da alma.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Retrato de Santiago





Santiago tem a estrutura de Buenos Aires com a gente boa de Montevidéu.

As pessoas são receptivas e amistosas.

Há quem diga que há nisso um pouco de apatia. Eu entendo por falta de afetação.

Vivem nas ruas de Santiago os maiores e mais bonitos cachorros de rua.

Os moradores de rua são raros.

As pessoas gostam de futebol, mas o balonpié não é um tema recorrente.

Há os dois bares mais legais que já conheci: La Piojera e Galpón Victor Jara.

No La Piojera, há uma bebida chamada Terremoto. Fica-se completamente bêbado em 20 minutos e todos conversam com todos, sem fazer tipo algum. Dá tristeza de lembrar do público do Mercearia São Pedro.

No Victor Jara, a cumbia pega forte e todo mundo dança sem se preocupar um segundo sequer com a imagem que passa. De causar inveja a qualquer rave europeia.

Não se pode beber na rua. As pessoas acham curioso que em São Paulo é possível abrir uma Brahma enquanto se caminha.

As pessoas bebem muito. Muito mesmo.

Ainda se pode fumar dentro de qualquer lugar fechado. Ninguém faz cara feia com a fumaça. Talvez, e só talvez, porque realmente a fumaceira não atrapalha tanto.

Os cidadãos andam na rua às quatro da madrugada mas dizem que Santiago “é muito perigosa”. Não é.

Os santiaguinos não gostam de Santiago assim como os paulistanos não gostam de São Paulo. No caso deles, sem razão.

As cordilheiras vistas da cidade são a coisa mais linda que há. Mas acostuma-se rápido com a visão.

Eles põem abacate em tudo, até no cachorro-quente. Fica bom.

Todos gostam muito de brasileiro. Não gostam muito de argentino e de peruano.
 
Ao dar informação de caminho, as pessoas têm uma estranha dificuldade de apontar a direção certa.. Sempre apontam o dedo exatamente entre duas ruas, e se fica sem saber para qual lado seguir.

O trânsito é quase tão ruim quanto o de São Paulo.

É um daqueles lugares que, ao menos logo depois de retornar de viagem, você pensa em voltar pra morar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém



Dia desses, eu estava com uns amigos, conhecidos e semi-conhecidos num bar. Em um momento a conversa rumou para música. Eu falei com a certeza de quem já tomou três cervejas a mais: “A música poderia se resumir em Noel Rosa, João Gilberto e Racionais”. Só se tem boa conversa com algumas verdades absolutas jogadas sobre a mesa. Num canto, até então quieto e observador, estava um sujeito conhecido do semi-conhecido de barba, camisa xadrez e óculos quadrados vermelho. O tipo que se tem certeza que rezou para Deus para ser acometido por miopia ou astigmatismo na adolescência e que regula o nível dos óculos pressionando o centro da armação com o dedo indicador. Pois bem. Ele rompeu o próprio silêncio, numa mistura de complacência e didatismo: “Desculpa, os outros tudo bem, mas Racionais não dá. Aquilo não é música. Mas o que mais me pega contra eles é a incoerência. Falam mal de playboy e o Mano Brown tem um Audi”. Depois, afirmou como se fosse um ser iluminado pelo Criador que é amante de jazz.

Não lhe disse, mas esse cara não sabe nada sobre a vida. Não há incoerência alguma. Para começar a acabar com o argumento basta ouvir o disco Nada Como um Dia após um Outro Dia, de 2002. É um tratado sobre a importância de ganhar dinheiro, de ter um carrão e uma corrente de ouro e as contradições que esses bens trazem a um sujeito negro de periferia. As pessoas querem ter destaque, seja qual for, seja pelo motivo que for. Os Titãs já ensinaram na década de 1980: A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte. Com a diferença que Brown afirma: A gente não quer só comida / A gente quer comida, cordão de elite 18 quilates, breitling no pulso e lupa baunch & lomb.

Cada música do disco, aliás, lembra da importância da grana no bolso. A música Vida Loka Parte 2 exalta: Imagina nós de Audi, ou de Citroen e Não é questão de luxo, não é questão de cor / É questão que fartura alegra o sofredor. Em A Vida é Desafio, é lembrada uma verdade fundamental: O sonho de todo pobre é ser rico. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém, como se diz em Da Ponte Pra Cá. Ninguém. E isso branco de classe média – de playboy da Vila Olímpia a estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo – tem dificuldade de entender.

Uma das frases que mais se ouve por aí desde a ascensão de milhões de pessoas para a famosa classe C é: “Agora qualquer casa na favela tem uma tevê de plasma, mas não tem livros”. Só idiotas eternos esbravejam contra a explosão de eletroeletrônicos das Casas Bahia em bairros pobres. Não entendem que o poder simbólico de uma tevê de plasma, de uma corrente de ouro, de um Playstation e de um tênis Nike é imensurável.

O sujeito com esses bens de consumo passa a não se sentir mais diferente dos riquinhos que vivem da ponte pra lá. Sente-se feliz, confortável, confiante e, a palavra é essa, com auto-estima. Qual o problema há nisso? Só se pode desprezar algo que se tenha. Os filhos dessas famílias, num futuro próximo, não verão tanta importância em assistir a uma televisão numa tela de 200 polegadas – isso foi normal durante toda a vida deles – e darão prioridade a outras coisas, como montar um coletivo de arte urbana. Grande parte dos filhos da classe média da zona oeste de São Paulo só pôde escolher profissões como clown, arte-educador e cineasta porque os pais – ou os avôs – foram engenheiros, advogados ou donos de imobiliárias. Alguém precisou ganhar dinheiro com profissões tradicionais para o rapaz se dar ao luxo de ganhar menos e ter prioridades mais nobres. Vocês querem que os meninos da favela leiam Nietzsche sob o teto do barraco de madeirite. Podem ler também, sem problema. Nada disso se opõe a ter uma bela tevê na sala. A gente não quer só comida e filosofia.

Depois de tantos anos de subemprego, de humilhação, de preconceito, de ser tratada como invisível, ainda se exige da periferia que tenha prioridades anti-consumistas. A classe média sempre comprou carro. Agora que os pobres também podem andar numa máquina motorizada inventou-se a moda que a bicicleta é o único veículo possível. É cultural ver os pobres enfurnados em ônibus lotados, em trens desumanos ou, no máximo, em chevetes com um adesivo de Jesus. Não é cultural vê-los num carro com teto solar, direção hidráulica e quatro círculos na frente. Ou mesmo em qualquer zero quilômetro com IPI reduzido. Dá-lhe exortar contra essa “pouca vergonha” que “atrapalha a cidade”, como se o trânsito fosse uma invenção da classe C. “Ei, bacana, quem te fez tão bom assim? O que cê deu, o que cê faz, o que cê fez por mim?”, muitos dos pobres que ascenderam devem, com razão, pensar.

Lembro-me de uma frase que pipoca como uma dessas verdades inapeláveis pelo Facebook: “País rico não é o que o pobre anda de carro, mas o que o rico usa transporte público”. Calma lá, amigos. Vocês passaram décadas transformando São Paulo em sinônimo de carangas gigantes e agora, que os mais pobres também podem ter as máquinas, vêm com esse papo? Pobre não pode estar certo nem com dinheiro. Sugiro que você pegue sua bicicleta diariamente na Praça da Sé e vá pedalando para Guaianases, Vila Ré ou Guarulhos; ou até Vila Joaniza, Taboão da Serra ou Vila Santa Catarina; ou até Brasilândia, Pirituba ou Jardim Brasil. Ir da Vila Madalena para o Alto de Pinheiros é mole. Primeiro deve-se ter um sistema de transporte público eficiente. Depois, as pessoas – de qual classe social forem – que decidam se querem ou não ter um carro.

De volta aos Racionais. Em uma das faixas de Nada Como um Dia, Brown deixa de lado a cantoria para contar uma situação que presencionou num Dia das Crianças. Era a de um menino pobre da zona sul de São Paulo que, em vez de presente, ganhou um tapa na cara da mãe por xingá-la por não ser presenteado. Brown termina a história: Aí eu fiquei pensando, né, mano, como uma coisa gera a outra. Isso gera um ódio. O moleque com 10 anos tomar um tapa na cara no Dia das Crianças. Eu fico pensando quantas mortes, quantas tragédias em família o governo já não causou com a incompetência, com a falta de humanidade. (…) Ali marcou pra ele. Talvez ele tenha se transformado numa outra pessoa aquele dia”. E agora, imagine que se em vez de tapa na cara o garoto ganhasse um tênis que solta luzinha ou um carrinho de controle remoto. É isso que está acontecendo cada vez mais. É consumismo? É. E o que a classe média de São Paulo fez toda a vida? Deixem de eco-egoísmo.

Não se deve ver com incoerência alguma o desejo de consumo. A reclamação de Brown contra os playboys de carrão é que Pero Vaz de Caminha foi o primeiro branco a ter um Audi por estas terras e desde então só descendente de europeu conseguiu chegar perto de um. O que o adorador de jazz não percebeu é que ele próprio acha estranho, sem se dar conta, um preto de periferia no comando de Audis e Citroens, mesmo que seja um dos artistas de música popular mais conhecidos do País. O mundo seria muito melhor se o desejo geral fosse pelo bem do próximo, pela paz mundial e pela elevação espiritual. Mas, como se sabe, em São Paulo Deus é uma nota de 100.